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2026

A paisagem também alimenta

O concurso fotográfico da Trashumancia mostra como imagens podem revelar a relação entre produção de alimentos, território e cultura. A prática da transumância vai além do deslocamento de animais: representa conhecimentos e formas de manejo construídas ao longo do tempo. Em uma sociedade cada vez mais distante do campo, contar essas histórias também faz parte da comunicação alimentar.

Uma fotografia de um rebanho atravessando uma estrada pode parecer apenas uma imagem bonita de um mundo rural distante. Mas, por trás dessa cena, existe uma história de produção de alimentos, de território, de conhecimento e de relações construídas ao longo de séculos.

A transumância — o deslocamento sazonal dos animais entre diferentes áreas de pastagem — é uma prática ancestral que ainda existe em algumas regiões europeias. Muito além do movimento dos animais, ela representa uma forma específica de utilizar os recursos naturais, manter paisagens rurais e preservar conhecimentos ligados à criação extensiva.

Recentemente, o XVIII Concurso Fotográfico da Trashumancia, organizado pela Real Asociación Española de Criadores de Raza Avileña-Negra Ibérica e pela IGP Carne de Ávila, voltou a colocar essa prática em evidência. As fotografias premiadas de Paloma Acuña e Jara García não mostram apenas animais ou paisagens: mostram uma relação entre pessoas, território e produção alimentar.

Existe algo curioso nessa valorização pela fotografia.

Em uma época em que a alimentação é frequentemente apresentada em números — emissões de carbono, proteínas, calorias, preços ou indicadores ambientais — algumas imagens conseguem mostrar uma dimensão que dificilmente cabe em uma tabela: a relação cultural entre alimento e território.

Isso não significa transformar toda prática tradicional em algo intocável ou negar os desafios da agricultura e da pecuária modernas. A produção de alimentos sempre evoluiu e continuará evoluindo.

Mas existe uma pergunta importante:

Será que, ao modernizar os sistemas alimentares, não corremos o risco de perder parte do conhecimento acumulado por aqueles que produziram alimentos durante gerações?

A transumância é um exemplo interessante porque mostra que algumas práticas antigas podem dialogar com questões atuais. O manejo extensivo dos animais, quando realizado em determinadas condições, está associado à manutenção de paisagens, ao aproveitamento de pastagens naturais e à conservação de ecossistemas rurais.

Talvez o maior desafio seja outro: tornar essas realidades compreensíveis para uma sociedade cada vez mais urbana.

A distância entre campo e cidade não é apenas geográfica. É também uma distância de conhecimento.

Muitas pessoas consomem alimentos cuja origem, produção e história permanecem invisíveis. Nesse contexto, uma fotografia pode fazer algo que uma longa explicação nem sempre consegue: criar uma ponte entre quem produz e quem consome.

Porque uma paisagem rural não é apenas uma paisagem. Ela também conta uma história alimentar.