
Imagine um cartão que deveria ser um passe para refeições equilibradas e de qualidade… e que agora abre a porta do seu bolso para snacks, salgadinhos e outros alimentos de baixa qualidade. É exatamente isso que acontece com a recente aprovação do uso de vales-refeição na Hema, rede de lojas da Holanda conhecida por produtos de conveniência, artigos de casa e uma oferta alimentar centrada em itens prontos para beliscar, longe da ideia de uma refeição propriamente dita.
Na França, o que nasceu como um incentivo à boa alimentação começa a se distanciar de sua função original. Desde a pandemia, os vales-refeição passaram a ser aceitos em supermercados e, mais recentemente, em estabelecimentos não especializados em alimentação.
O resultado é concreto: entre 2022 e 2025, mais de 800 milhões de euros deixaram de circular na restauração tradicional, deslocados para a grande distribuição.
O caso da Hema não é um episódio isolado — é um precedente. Se basta vender alguns snacks para se tornar elegível ao sistema, por que não estender o benefício a lojas de roupas, academias ou qualquer comércio que mantenha uma prateleira de biscoitos?
A pergunta não é retórica: ela revela o risco de normalizar o financiamento indireto de alimentos de baixa qualidade em um contexto de crescente preocupação com obesidade e doenças crônicas.
Curiosamente, no Brasil, a legislação é mais restritiva. O vale-refeição só pode ser usado para refeições prontas, enquanto o vale-alimentação permite compras em supermercados, mas exclusivamente de produtos alimentares — ainda que isso inclua, na prática, muitos itens ultraprocessados.
Mesmo assim, o marco regulatório preserva, ao menos no papel, a ideia de que esses benefícios devem servir para alimentar pessoas, e não apenas impulsionar o consumo.
Uma reforma do sistema francês de vales-refeição está em curso e promete debates intensos no Parlamento. O desafio será decidir se esse instrumento continuará sendo uma política social ligada à alimentação ou se se tornará apenas mais um meio de pagamento, indiferente à qualidade do que coloca no prato.
No fim das contas, o debate vai além da Hema ou dos vales-refeição. Ele toca em uma questão mais profunda: que tipo de alimentação estamos dispostos a legitimar e a financiar — em nome da praticidade ?
Imagem: Freepik
Fonte : Capital