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2026

Quando os vales-refeição começam a financiar alimentos de baixa qualidade

O vale-refeição foi criado para garantir acesso a refeições de qualidade, não para financiar alimentos de baixa qualidade. Ao ampliar indiscriminadamente seus usos, esvazia-se o sentido do benefício em nome da conveniência. O debate não é sobre liberdade de consumo, mas sobre que modelo alimentar estamos dispostos a legitimar.

Imagine um cartão que deveria ser um passe para refeições equilibradas e de qualidade… e que agora abre a porta do seu bolso para snacks, salgadinhos e outros alimentos de baixa qualidade. É exatamente isso que acontece com a recente aprovação do uso de vales-refeição na Hema, rede de lojas da Holanda conhecida por produtos de conveniência, artigos de casa e uma oferta alimentar centrada em itens prontos para beliscar, longe da ideia de uma refeição propriamente dita.

Na França, o que nasceu como um incentivo à boa alimentação começa a se distanciar de sua função original. Desde a pandemia, os vales-refeição passaram a ser aceitos em supermercados e, mais recentemente, em estabelecimentos não especializados em alimentação.

O resultado é concreto: entre 2022 e 2025, mais de 800 milhões de euros deixaram de circular na restauração tradicional, deslocados para a grande distribuição.

O caso da Hema não é um episódio isolado — é um precedente. Se basta vender alguns snacks para se tornar elegível ao sistema, por que não estender o benefício a lojas de roupas, academias ou qualquer comércio que mantenha uma prateleira de biscoitos?

A pergunta não é retórica: ela revela o risco de normalizar o financiamento indireto de alimentos de baixa qualidade em um contexto de crescente preocupação com obesidade e doenças crônicas.

Curiosamente, no Brasil, a legislação é mais restritiva. O vale-refeição só pode ser usado para refeições prontas, enquanto o vale-alimentação permite compras em supermercados, mas exclusivamente de produtos alimentares — ainda que isso inclua, na prática, muitos itens ultraprocessados.

Mesmo assim, o marco regulatório preserva, ao menos no papel, a ideia de que esses benefícios devem servir para alimentar pessoas, e não apenas impulsionar o consumo.

Uma reforma do sistema francês de vales-refeição está em curso e promete debates intensos no Parlamento. O desafio será decidir se esse instrumento continuará sendo uma política social ligada à alimentação ou se se tornará apenas mais um meio de pagamento, indiferente à qualidade do que coloca no prato.

No fim das contas, o debate vai além da Hema ou dos vales-refeição. Ele toca em uma questão mais profunda: que tipo de alimentação estamos dispostos a legitimar e a financiar — em nome da praticidade ?



Imagem: Freepik

Fonte : Capital