
Durante anos, bastava elogiar. Restaurantes lotavam mesas enquanto influenciadores multiplicavam posts positivos, muitas vezes embalados por convites, parcerias ou acordos pouco explícitos. O modelo funcionou — até deixar de funcionar. Nos últimos meses, surge um movimento oposto.
Criadores que antes recomendavam tudo agora alternam entre elogios e críticas duras, por vezes demolidoras. A lógica é simples: se tudo parecia publicidade, então a crítica — especialmente a negativa — passa a ser sinal de autenticidade.
Alguns constroem sua identidade justamente na denúncia de lugares “superestimados” ou experiências decepcionantes.
Esse deslocamento não é trivial. Ele revela uma mudança na relação entre comida, opinião e confiança.
O elogio perdeu força porque foi capturado pelo marketing.
A crítica cresce porque promete independência.
Mas nem toda crítica é análise — e é aqui que a linha começa a se embaralhar.
As plataformas digitais não são neutras. Conteúdos mais extremos, mais categóricos, mais incisivos tendem a circular mais.
Isso cria um incentivo silencioso: ser mais duro, mais definitivo, mais teatral. O risco é que a crítica deixe de ser um exercício de avaliação para se tornar um formato de entretenimento. E assim nuance vira fraqueza.
Para quem está do outro lado — chefs, pequenos restaurantes, negócios independentes — o impacto pode ser desproporcional.
Uma crítica bem construída pode contribuir para o debate. Mas uma crítica feita para performar pode reduzir um trabalho complexo a um veredito simplificado, às vezes irreversível.
Isso não significa que devemos voltar ao elogio fácil. A crítica é necessária, legítima e até saudável. Mas talvez valha perguntar: o que esperamos de quem fala de comida? Rigor? Honestidade? Ou impacto?
No fundo, a questão não é se o influenciador deve ser “elogiar” ou “detonar”. A questão é que quando a crítica precisa endurecer para parecer verdadeira, corre-se o risco de trocar a falta de transparência por excesso de espetáculo.
Nem elogio nem a demolição garantem credibilidade. A credibilidade vem da consistência — e ela, curiosamente, raramente viraliza.
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