Agriculture
23
.
07
.
2026

Quando o fogo redesenha a produção de alimentos

Os incêndios florestais já afetam a produção de alimentos, a renda dos agricultores e a estabilidade das cadeias agroalimentares europeias. Em resposta, a União Europeia passou a integrar medidas agrícolas às estratégias de prevenção, incluindo o incentivo ao pastoreio e aos sistemas silvipastoris. A gestão da paisagem torna-se, assim, um elemento importante para reduzir o risco de incêndios e aumentar a resiliência do sistema alimentar.

Todos os verões, as imagens de grandes incêndios florestais se repetem em diferentes regiões da Europa. Florestas destruídas, populações evacuadas e milhares de hectares consumidos pelas chamas tornam-se parte da cobertura jornalística.

O que recebe menos atenção é o impacto desses eventos sobre a produção de alimentos e a forma como a agricultura europeia começa a se reorganizar diante desse novo cenário.

Os incêndios afetam diretamente áreas agrícolas, destroem culturas, comprometem pastagens, provocam a perda de animais e reduzem a renda de milhares de produtores. Em muitas regiões, os efeitos continuam mesmo depois que o fogo é controlado.

Solos degradados, infraestrutura danificada e menor disponibilidade de alimentos podem comprometer a produção por vários anos e influenciar os custos ao longo da cadeia agroalimentar.

As consequências também chegam ao consumidor. Quando a produção diminui, determinadas matérias-primas tornam-se mais escassas, elevando os custos de processamento e pressionando os preços dos alimentos.

Em paralelo, agricultores precisam investir na recuperação das áreas atingidas e adaptar seus sistemas produtivos a um risco que deixou de ser excepcional para se tornar recorrente em diversas regiões europeias.

Diante desse cenário, a União Europeia vem ampliando sua estratégia de prevenção. Além do reforço dos sistemas de monitoramento, da cooperação entre os Estados-Membros e dos investimentos em equipamentos de combate ao fogo, as políticas europeias passaram a reconhecer o papel da própria atividade agrícola na redução do risco de incêndios.

Uma das estratégias que ganha espaço é o incentivo ao pastoreio e aos sistemas silvipastoris. Ovinos, caprinos e bovinos alimentam-se da vegetação rasteira e dos arbustos que funcionam como combustível para a propagação das chamas. Ao reduzir essa biomassa de forma contínua, os rebanhos ajudam a diminuir a intensidade dos incêndios e complementam outras medidas de gestão da paisagem.

Essa abordagem também contribui para manter a atividade econômica em áreas rurais sujeitas ao abandono. Em diferentes regiões da Europa, programas de manejo com rebanhos locais vêm sendo utilizados para conservar espaços naturais, reduzir o risco de incêndios e preservar atividades tradicionais que perderam importância nas últimas décadas.

A prevenção dos incêndios deixa, assim, de depender exclusivamente de tecnologias de combate e passa a integrar as políticas agrícolas, ambientais e de desenvolvimento rural.

O agricultor e o pecuarista deixam de ser vistos apenas como vítimas das mudanças climáticas para assumir também um papel ativo na gestão da paisagem e na proteção dos ecossistemas.

Os incêndios continuarão a representar um dos maiores desafios ambientais da Europa nas próximas décadas. A diferença é que as soluções começam a ir além da resposta às emergências.

A forma de produzir alimentos, ocupar o território e gerir os recursos naturais passa a fazer parte da estratégia de prevenção, mostrando que agricultura e proteção ambiental caminham, cada vez mais, na mesma direção.