Quando se fala em cantina escolar, a discussão costuma girar em torno da qualidade nutricional das refeições, do preço e da educação alimentar. Um conjunto crescente de pesquisas convida a olhar para esse momento de outra maneira: o que acontece durante a refeição também pode ter importância para o bem-estar das crianças.
A questão foi recentemente destacada pela revista francesa Néo Restauration, ao abordar estudos sobre a relação entre alimentação escolar e saúde mental. A ideia merece atenção, desde que não seja simplificada. Não se trata de afirmar que uma refeição na cantina, por si só, melhora a saúde mental de uma criança. O que a pesquisa começa a mostrar é que os programas de alimentação escolar e, sobretudo, a experiência social que envolve esse momento podem produzir efeitos que ultrapassam a nutrição.
Uma revisão publicada em 2025 no BMJ Open reuniu 44 estudos realizados em 13 países sobre os impactos dos programas de alimentação escolar na saúde e no bem-estar de crianças. Os resultados apontaram associações com melhorias na alimentação, no comportamento, no apoio social e no engajamento com outras crianças. Os autores também observaram que programas universais podem reduzir o estigma associado à ajuda alimentar, enquanto programas dirigidos apenas a determinados grupos podem, em alguns contextos, reforçá-lo.
Outro aspecto importante é a própria dimensão social da refeição. Comer com os colegas é uma experiência de convivência. Estudos realizados em diferentes países mostram que esse momento pode favorecer interações sociais, o sentimento de pertencimento e a construção de relações entre pares. Uma pesquisa realizada na Noruega, por exemplo, observou que a introdução de uma refeição escolar gratuita foi associada, na percepção de professores e gestores, a interações mais positivas entre os alunos e a um ambiente mais tranquilo durante o almoço.
Mas a cantina também pode produzir o efeito contrário quando o ambiente não é acolhedor. Pesquisas sobre a experiência das crianças durante as refeições escolares mostram que filas longas, pouco tempo para comer, barulho, isolamento ou dificuldades nas relações com os colegas podem transformar o almoço em um momento de ansiedade. O simples fato de oferecer uma refeição, portanto, não garante automaticamente uma experiência positiva.
É justamente aí que o tema se torna interessante. A cantina escolar não é apenas um local onde se distribuem refeições. Ela é também um espaço de convivência, socialização e aprendizagem. Durante esse tempo, as crianças conversam, formam grupos, experimentam relações de pertencimento e, eventualmente, também enfrentam situações de exclusão.
Essa dimensão é particularmente relevante em um momento em que a saúde mental infantil ocupa um lugar crescente no debate público. Talvez seja preciso olhar com mais atenção para os espaços ordinários da vida das crianças e não apenas para intervenções especificamente concebidas como políticas de saúde mental.
A alimentação escolar já é reconhecida por seu papel na nutrição, na redução das desigualdades e no apoio às famílias. As pesquisas mais recentes sugerem que seus efeitos podem ser mais amplos. A qualidade da refeição continua sendo fundamental, mas a forma como esse momento é organizado — com quem se come, em que ambiente e em quais condições — também pode fazer diferença.
A cantina, afinal, não é apenas o intervalo entre duas aulas. Para muitas crianças, ela é um dos poucos momentos do dia escolar em que a aprendizagem dá lugar à convivência. E talvez seja justamente aí que resida uma parte de seu valor.
Fontes : Néo Restauration – La cantine aurait un impact positif sur la santé mentale des enfants


