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Fundação Verakis

Quando a paisagem entra no prato

A Finlândia criou uma experiência gastronômica em que paisagem, produtores, ingredientes e viagem fazem parte de um mesmo percurso. A iniciativa mostra como o turismo gastronômico transforma o território em parte do próprio produto e da narrativa culinária. Mas, quando tradição e paisagem também se tornam experiências de consumo, vale perguntar o que permanece além da fotografia e da lembrança da viagem.

Quando a paisagem entra no prato

Há algum tempo, viajar para comer deixou de significar apenas procurar um bom restaurante no destino.

Hoje, há quem viaje para conhecer um produtor, uma região vinícola, um mercado, uma feira ou uma cozinha específica. E há experiências em que o próprio lugar passa a fazer parte da refeição.

A Finlândia acaba de levar essa ideia bastante longe.

Na iniciativa “Mesa de degustação oficial da Finlândia”, o país convida participantes para uma experiência gastronômica em ilhas remotas do arquipélago e em paisagens da Lapônia. Durante quatro dias, a viagem combina deslocamentos pelo território, refeições e uma proposta culinária construída a partir das estações, dos ingredientes locais e dos produtores de diferentes regiões.

A proposta foi construída a partir de uma consulta a comunidades locais — pescadores, agricultores e moradores de diferentes regiões — cujos relatos ajudaram a identificar aquilo que poderia representar o “DNA culinário” finlandês. Esse material foi depois reinterpretado por chefs, entre eles Erik Mansikka, do restaurante Kaskis, em Turku.

É uma iniciativa de turismo gastronômico, evidentemente.

Mas há algo mais interessante acontecendo aqui.

A paisagem deixou de ser apenas o lugar onde a comida é produzida. Ela passou a fazer parte do que está sendo vendido.

Isso muda bastante a experiência.

Em um restaurante tradicional, podemos saber de onde vem o ingrediente, mas normalmente deixamos o território do lado de fora da porta. Aqui, o território está literalmente dentro da experiência: a viagem, o clima, a vegetação, a sazonalidade, os deslocamentos e a paisagem participam da construção do menu.

É uma forma bastante sofisticada de contar uma história de alimentação.

E também de fazer marketing territorial.

A Finlândia não está apenas dizendo “venha comer conosco”. Está dizendo: venha conhecer o lugar que produz essa comida.

Essa estratégia não é exclusiva dos países nórdicos. O turismo gastronômico vem se aproximando cada vez mais da ideia de conhecer um território através daquilo que ele produz e come. A refeição deixa de ser uma atividade secundária durante a viagem e pode se transformar no próprio motivo para viajar.

Mas existe uma pergunta interessante nessa transformação: quando compramos uma experiência gastronômica desse tipo, estamos pagando pela comida ou pelo contexto?

Provavelmente pelos dois.

Um peixe servido em um restaurante pode ser bom. O mesmo peixe consumido depois de uma viagem de barco, em uma paisagem remota, acompanhado da história de quem o pescou, terá outro significado.

O sabor mudou?

Talvez não.

A experiência, certamente.

É aí que a gastronomia encontra o turismo, o marketing e a construção de identidade.

Um território passa a ser transformado em narrativa. Os ingredientes tornam-se personagens. Os produtores ganham rosto. A paisagem deixa de ser cenário e passa a ser argumento.

Isso não é necessariamente ruim. Pelo contrário: pode ser uma maneira interessante de valorizar produtos, produtores e conhecimentos locais.

Mas também vale prestar atenção ao movimento contrário.

Quando toda paisagem vira experiência, todo ingrediente vira narrativa e toda tradição vira produto turístico, existe o risco de transformar a cultura alimentar em uma espécie de decoração de luxo.

A pergunta, portanto, não deveria ser apenas se a experiência é bonita, sustentável ou autêntica.

O que permanece quando os turistas vão embora ?

Se a experiência ajuda a manter produtores, valorizar conhecimentos, criar mercado para produtos locais e tornar uma cultura alimentar mais conhecida, há algo concreto por trás da narrativa.

Se resta apenas uma bela fotografia para as redes sociais, temos outra coisa.

A iniciativa finlandesa é interessante justamente porque mostra onde está indo uma parte do turismo gastronômico: não basta mais comer o produto de um território. Queremos entrar na paisagem, conhecer a história, encontrar quem produz e transformar a refeição em memória.

No fundo, talvez seja uma consequência bastante lógica de uma época em que comer deixou de ser apenas uma necessidade e passou a ser também uma maneira de viajar.

Primeiro colocamos o território no prato.

Agora estamos colocando o prato dentro do território.

Fonte: Visit Finland, iniciativa “Official Finnish Tasting Table”; matéria publicada pela Origen, 25/05/2026.