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Fundação Verakis

O preconceito também vem em lata

Com uma campanha voltada aos jovens adultos, a UPPIA procura renovar a imagem das conservas, valorizando sua tecnologia de conservação, segurança, praticidade e versatilidade, e mostrando como a comunicação pode influenciar a percepção dos consumidores sobre os alimentos.

O preconceito também vem em lata

A indústria alimentar tem um desafio curioso: alguns produtos precisam mudar de formulação, outros precisam mudar de embalagem e há aqueles que precisam, antes de tudo, mudar de reputação.

É o caso das conservas. Presentes há décadas nas cozinhas, elas ainda carregam uma imagem que nem sempre corresponde às suas características tecnológicas: alimento de emergência, opção de última hora, produto pouco interessante ou distante de uma alimentação considerada moderna.

É justamente essa percepção que a UPPIA (Union interprofessionnelle pour la promotion des industries de la conserve appertisée), organização francesa que representa o setor, procura modificar com sua campanha « La conserve, n’attendez pas pour l’adopter ». Lançada inicialmente em 2025, a iniciativa ganhou uma nova edição em outubro de 2026, com atenção especial aos jovens adultos.

A estratégia não consiste apenas em lembrar que existe uma lata de ervilhas ou de tomates na prateleira do supermercado. A proposta é reposicionar a conserva como ingrediente da cozinha cotidiana, associando-a à praticidade, à acessibilidade econômica, à criatividade culinária e à redução do desperdício alimentar. Para isso, a UPPIA procura ocupar os canais de comunicação frequentados pelas gerações mais jovens e aproximar o produto de seus hábitos e expectativas.

A escolha é interessante do ponto de vista da comunicação. Em vez de insistir apenas na tradição de uma tecnologia antiga, a campanha procura construir novas ocasiões de consumo e apresentar a conserva como uma possibilidade atual. A intenção é deixar de associá-la exclusivamente à falta de tempo ou à necessidade de improvisar uma refeição.

Mas existe uma questão que merece ser colocada: será que o problema está no produto ou na maneira como aprendemos a percebê-lo?

Na alimentação, criamos algumas hierarquias que nem sempre têm fundamento técnico. O fresco costuma ser associado à qualidade, o artesanal à autenticidade, o feito em casa à confiança e o industrializado precisa frequentemente explicar por que merece estar à mesa. A conserva acaba entrando nessa última categoria, embora seu processo de fabricação tenha uma história importante na evolução das tecnologias de conservação dos alimentos.

A appertização, processo desenvolvido por Nicolas Appert no início do século XIX, combina o acondicionamento em recipiente hermeticamente fechado com um tratamento térmico adequado. Quando corretamente aplicado e validado, esse procedimento permite obter um produto microbiologicamente estável, que pode ser armazenado à temperatura ambiente enquanto a embalagem permanecer íntegra. É uma tecnologia de conservação que contribui diretamente para a segurança dos alimentos.

E há outro ponto pouco lembrado: a conserva não é necessariamente sinônimo de aditivos conservantes. Em muitos produtos, é o próprio tratamento térmico, associado à vedação da embalagem, que assegura a conservação. O processo também pode preservar uma parte importante dos nutrientes, embora os resultados variem conforme o alimento, o tratamento e as condições de armazenamento.

A campanha da UPPIA também destaca a possibilidade de reduzir o desperdício, a acessibilidade dos produtos e a reciclabilidade das embalagens metálicas. São argumentos pertinentes, mas que precisam ser avaliados em seus respectivos contextos: a composição nutricional depende da receita, o impacto ambiental depende de toda a cadeia produtiva e a reciclabilidade efetiva depende dos sistemas de coleta e reciclagem disponíveis.

O que a iniciativa demonstra, sobretudo, é que a comunicação alimentar não se limita a informar sobre um produto. Ela também trabalha sobre representações, hábitos e expectativas. Para conquistar novos consumidores, não basta apresentar atributos técnicos; é preciso compreender quais imagens estão associadas à categoria e encontrar maneiras de reposicioná-la.

Talvez a conserva não precise exatamente se reinventar. Talvez precise ser observada sem o filtro de ideias preconcebidas.

Afinal, desde quando a tecnologia de conservação de um alimento determina, por si só, seu valor nutricional, sua segurança ou sua qualidade?
 

Fontes de referência

Agro Media — L’UPPIA mise sur la jeunesse pour renouveler l’image de la conserve — campanha e estratégia de comunicação.

Ministério da Agricultura da França — Guia de boas práticas de higiene — definição técnica de conservas e princípios de estabilidade microbiológica.

CTCPA — Centre technique de la conservation des produits agricoles — processos térmicos, fechamento das embalagens e controles de fabricação.