
O Reino Unido anunciou que vai proibir a publicidade de alimentos de baixa qualidade nutricional e ambiental antes das 21h na TV e em plataformas digitais, numa tentativa de reduzir a exposição de crianças e adolescentes a produtos que combinam excesso de calorias, açúcares, gorduras e impactos ambientais negativos.
A medida surge em resposta a preocupações com saúde pública e sustentabilidade, já que estudos oficiais indicam que uma parte significativa da população infantil apresenta excesso de peso e padrões de consumo pouco saudáveis.
À primeira vista, a decisão parece um avanço na proteção do consumidor. Controlar a exposição à publicidade de produtos com baixo valor nutricional e ambiental é uma resposta legítima frente a uma indústria que investe milhões em campanhas persuasivas e altamente segmentadas.
Medidas semelhantes já existem em outras partes do Reino Unido e em alguns países europeus, limitando anúncios de alimentos pouco saudáveis durante horários infantis.
Mas será que proibir a publicidade realmente ataca as causas profundas do consumo impulsivo? Em nossas cidades e lares, alimentos de baixa qualidade estão onipresentes, baratos e convenientes.
Eles aparecem em supermercados, nas prateleiras dos caixas, em aplicativos de entrega e promoções, transformando cada compra em uma tentação quase inevitável. A publicidade é apenas uma peça de um ecossistema mais amplo, que inclui preço, disponibilidade, embalagem e marketing de conveniência.
Além disso, a educação alimentar nas famílias mudou drasticamente. Muitos jovens cresceram sem referências consistentes sobre escolhas alimentares conscientes, preparo de refeições e compreensão de impactos nutricionais e ambientais. Em casas com rotinas fragmentadas e escassez de tempo, a decisão sobre o que comer é frequentemente ditada pela conveniência, não pela informação ou reflexão.
Portanto, embora a restrição de publicidade seja legítima, ela não é suficiente por si só. Políticas públicas eficazes precisam combinar limites de anúncios com educação alimentar, promoção de alimentos de qualidade, rotulagem clara, incentivo a escolhas sustentáveis, acesso facilitado a produtos nutritivos e de baixo impacto ambiental, e ações coordenadas com o setor privado.
Mais do que isso, seria necessário resgatar o valor da comida, de modo que os consumidores estejam dispostos a investir mais em alimentos do que em tecnologia ou moda, reconhecendo seu impacto na saúde e no meio ambiente. Caso contrário, o consumo impulsivo continuará a ser moldado muito além da “janela da TV”, e a transformação de hábitos permanecerá limitada.
Fonte: https://www.legislation.gov.uk/uksi/2024/1266/
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