Pular para o conteúdo
Fundação Verakis

Harmony e a certificação da cadeia do trigo

O programa Harmony, criado pela Mondelēz para promover práticas agrícolas mais sustentáveis na produção de trigo, passa a funcionar como uma certificação independente, ampliando o debate sobre governança, rastreabilidade e comprovação dos compromissos ambientais na cadeia agroalimentar europeia.

Harmony e a certificação da cadeia do trigo

Em setembro de 2026 a Mondelēz International anunciou uma mudança importante em seu programa "Harmony", criado para promover práticas agrícolas mais sustentáveis na produção de trigo. Depois de quase duas décadas ligado à estratégia de abastecimento da empresa, o programa passa a funcionar como um sistema de certificação independente, aberto aos diferentes participantes da cadeia europeia do trigo.

A iniciativa nasceu na França, em 2008, com 68 agricultores. Hoje, reúne mais de 1.200 produtores em nove países europeus, abrangendo aproximadamente 57 mil hectares de cultivo. A governança foi transferida para a Fundação ProTerra, organização sem fins lucrativos especializada em sistemas de certificação de sustentabilidade. A Mondelēz continuará participando do programa e apoiando seu desenvolvimento.

Mas o que muda quando uma iniciativa criada por uma empresa passa a ser uma certificação independente?

O primeiro ponto está na governança. A gestão do referencial deixa de estar diretamente nas mãos da empresa que o criou, e o novo sistema prevê uma separação entre gestão, implementação e verificação. Auditorias realizadas por terceiros devem avaliar o cumprimento dos critérios ao longo da cadeia, desde a exploração agrícola até o produto acabado.

O referencial Harmony contempla práticas relacionadas à saúde dos solos, à biodiversidade, à diversificação de culturas e ao uso responsável de produtos fitossanitários. A proposta é oferecer um conjunto estruturado de critérios que possa ser adotado por outros participantes do setor, ampliando o alcance da iniciativa para além das necessidades de abastecimento da Mondelēz.

A mudança também ocorre em um contexto regulatório europeu que exige maior transparência nas alegações ambientais e nos rótulos de sustentabilidade. Para as empresas alimentares, demonstrar um compromisso já não se resume a comunicá-lo: é necessário explicar o que está sendo avaliado e como as informações são verificadas.

Independência não é sinônimo automático de impacto ambiental comprovado. Uma certificação precisa ser examinada pelos critérios que estabelece, pela qualidade dos mecanismos de auditoria, pela rastreabilidade que oferece e pelos resultados que consegue demonstrar. Importante também é saber como as não conformidades são tratadas e quais consequências existem quando os requisitos não são cumpridos.

Essa distinção é que torna a evolução do Harmony interessante. Uma iniciativa desenvolvida no âmbito de uma empresa pode se tornar um instrumento compartilhado por toda uma cadeia produtiva. Isso cria a possibilidade de ampliar a adoção de determinadas práticas, mas também torna essencial a transparência sobre o funcionamento e os resultados do sistema.

No fim, o valor de uma certificação não está apenas no selo que aparece na embalagem. Está naquilo que o selo permite verificar, comparar e compreender.

Quando uma empresa apresenta um compromisso de sustentabilidade, você costuma procurar os critérios por trás do selo ou a presença de uma certificação já é suficiente para transmitir confiança?