
No recente European Congress on Obesity (ECO2025), realizado em Málaga, surgiu um prémio que nos chama a atenção não apenas pelo seu conteúdo técnico, mas pelo que ele simboliza: o ECO2025 Public Engagement & Science Communication Prize — um reconhecimento àqueles que conseguem traduzir pesquisa complexa em mensagens claras e relevantes para a sociedade.
Esse prêmio, concedido pela European Association for the Study of Obesity (EASO) com apoio da Eli Lilly & Company, nasceu justamente para valorizar pesquisadores em início de carreira que vão além dos dados e gráficos, e conseguem construir pontes entre ciência, política pública e cidadãos comuns. Cada vencedor leva um apoio financeiro para desenvolvimento em comunicação científica e a oportunidade de continuar ampliando seu impacto.
Entre os premiados deste ano estão dois projetos que ilustram bem a importância dessa ponte: Matthew Harris, que liderou um estudo colaborativo sobre a necessidade e o desenho de ensaios clínicos para entender se a perda de peso pode reduzir o risco de câncer, envolvendo diretamente pacientes e o público; e Chiara Gericke, cuja análise geoespacial revelou como a concentração de outlets de comida pronta em torno de escolas em Londres se relaciona com a obesidade infantil — informação que já está sendo utilizada por autoridades locais para orientar políticas urbanísticas.
O que esse prêmio nos lembra é que, no campo da obesidade — e, por extensão, na alimentação — não basta produzir ciência rigorosa: é preciso comunicá‑la de forma que faça sentido para quem vive o problema, para quem faz políticas ou para quem pensa o futuro das nossas cidades, nossas escolas e nossas comunidades.
Ciência não é apenas uma publicação encerrada em uma revista especializada; ela precisa ser um elemento ativo no debate público, acessível e útil para além dos muros acadêmicos.
E aqui está a provocação: se até no campo da obesidade já temos um prémio que valoriza a tradução da ciência para o público, porque ainda insistimos tantas vezes em comunicar alimentos, nutrição e sistemas alimentares como se fossem simples slogans de consumo?
Talvez este seja um convite para repensar não só o que comunicamos sobre comida, mas como fazemos isso — e para quem.
Porque na mesa da sociedade, quem sabe comunicar ciência tem tanto papel quanto quem sabe cozinhar com qualidade.
