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Fundação Verakis

Antes do primeiro gole a marca já falou

A Coca-Cola está renovando sua identidade visual global sem alterar as receitas dos seus produtos. A mudança mostra como cores, formas, tipografia e embalagens participam do reconhecimento de um alimento antes mesmo de ele ser consumido. Para uma marca global, atualizar a aparência significa encontrar um equilíbrio entre inovação e memória.

Há marcas que precisam explicar quem são.

Outras precisam apenas mostrar uma cor, uma letra ou uma forma.

A Coca-Cola pertence claramente ao segundo grupo.

Em julho de 2026, a empresa apresentou um novo sistema global de identidade visual, que será implementado progressivamente em mais de 200 mercados. A proposta não é criar uma nova Coca-Cola, mas reorganizar visualmente aquilo que já faz a marca ser reconhecida: o vermelho, o branco, a tipografia Spencerian, a faixa dinâmica e outros elementos que aparecem nas embalagens, nos pontos de venda e nos ambientes digitais.

A campanha que acompanha a mudança resume bem a intenção: “Nova imagem. O mesmo sabor.”

É uma frase de marketing, evidentemente. Mas também contém uma questão interessante sobre marcas de alimentos.

Até onde é possível mudar sem mudar?

A Coca-Cola não está alterando a receita. Está alterando a maneira como a receita é apresentada.

E isso diz bastante sobre a importância da embalagem e da identidade visual na alimentação contemporânea.

Antes mesmo de ler o nome de um produto, muitas vezes já sabemos o que estamos vendo.

Uma cor, uma forma, uma tipografia, uma combinação de elementos gráficos pode funcionar quase como uma assinatura. A embalagem deixa de ser apenas uma proteção para o alimento e passa a ser uma espécie de reconhecimento instantâneo.

Isso é particularmente importante para uma marca global.

A Coca-Cola está presente em mais de 200 mercados, mas não pode parecer completamente diferente em cada um deles. O novo sistema procura justamente aumentar a coerência da identidade da marca nos diferentes países e pontos de contato.

Há também uma mudança interessante na apresentação da Coca-Cola Zero Sugar.

A nova identidade aproxima visualmente a versão sem açúcar da identidade histórica da Coca-Cola, mas mantém elementos próprios para diferenciá-la, como o maior destaque para “Zero Sugar”, a faixa preta nas latas e a tampa preta nas garrafas PET.

Ou seja: aproximar para reconhecer, diferenciar para escolher.

Parece contraditório.

Não é.

É exatamente o tipo de equilíbrio que uma marca precisa administrar quando possui produtos diferentes, mas quer que todos pertençam claramente à mesma família.

E aqui aparece algo que interessa particularmente quando falamos de alimentos.

Nós não compramos apenas aquilo que está dentro da embalagem.

Compramos também sinais.

Reconhecemos marcas antes de pensar sobre ingredientes. Associamos cores a sabores. Identificamos produtos de longe na prateleira. Criamos expectativas antes mesmo de abrir uma garrafa ou uma lata.

A identidade visual participa da experiência alimentar antes do primeiro gole.

Talvez por isso uma mudança aparentemente pequena na embalagem possa ser tão importante para uma empresa.

Para o consumidor, pode parecer apenas uma nova lata.

Para a marca, é uma questão de memória.

Como mudar sem romper com aquilo que já está instalado na cabeça de milhões de pessoas?

Como atualizar uma marca sem fazer com que ela pareça outra?

E talvez exista uma pequena ironia nisso tudo.

Uma das marcas mais reconhecíveis do mundo precisa trabalhar continuamente para continuar parecendo... a Coca-Cola.

Mudar, nesse caso, não significa necessariamente abandonar uma identidade.

Às vezes significa justamente encontrar uma nova maneira de fazer com que ela continue sendo reconhecida.

A embalagem muda. A memória precisa permanecer.