
Agora até o vinho precisa explicar que é vegano. A novidade vem de Portugal: a Quinta do Sampayo lançou um rosé vegano em edição limitada, destacando no centro da comunicação algo que, para muita gente, parece quase óbvio — afinal, vinho não é basicamente uva fermentada?
A questão é um pouco mais complexa. Muitos vinhos utilizam, durante a clarificação, substâncias de origem animal como clara de ovo, caseína do leite, gelatina ou derivados de peixe para tornar o líquido mais límpido e brilhante.
O vinho “vegano” evita esses agentes e utiliza alternativas minerais ou vegetais — ou simplesmente deixa o vinho se clarificar naturalmente com o tempo.
Até aqui, tudo faz sentido. O ponto mais interessante começa depois: em que momento uma técnica de produção vira identidade de marketing?
Porque o termo “vegano”, que inicialmente carregava uma dimensão ética ligada à exploração animal, hoje aparece em categorias onde o consumidor médio sequer imaginava a presença de insumos animais.
Isso cria um fenômeno curioso: o alimento passa a comunicar menos o que ele é e mais aquilo que ele quer simbolizar culturalmente.
O vinho vegano não é necessariamente mais natural, mais sustentável ou menos industrial. São coisas diferentes. Um vinho pode ser vegano e altamente intervencionista. Outro pode usar práticas agrícolas extremamente sustentáveis e ainda assim empregar clara de ovo na clarificação.
E aqui surge um desconforto legítimo: durante séculos, esterco animal foi usado como fertilizante em sistemas agrícolas circulares, justamente porque fazia parte do reaproveitamento orgânico da produção rural. Hoje, em alguns discursos contemporâneos, qualquer vínculo animal passa a ser tratado quase como contaminação simbólica — mesmo quando historicamente fazia parte de uma lógica agrícola sustentável.
Isso não invalida a escolha vegana. Mas talvez mostre como a alimentação moderna se tornou profundamente semântica. Epor aqui falamos algumas vezes sobre isso. O consumidor já não compra apenas um vinho: compra uma narrativa moral, ambiental ou identitária associada a ele.
No fundo, o vinho vegano revela algo maior sobre nosso tempo. Não basta mais beber vinho. É preciso que o vinho diga alguma coisa sobre quem somos.