
Um mercado em Madri decidiu encenar um mundo sem aquicultura. O resultado não foi uma distopia futurista, mas algo mais banal — e talvez mais inquietante: balcões vazios, filas longas e porções mínimas. Não era falta de logística. Era uma ausência deliberada, pensada para mostrar o que aconteceria se dependêssemos apenas da pesca extrativa.
Hoje, mais de 50% do peixe consumido no mundo vem da aquicultura. Sem ela, o peixe deixaria de ser um alimento cotidiano para voltar a ser um privilégio raro — menos presente no prato e mais presente na memória.
A encenação em Madri revela um paradoxo curioso: mesmo sabendo da importância da aquicultura para garantir suprimento, ainda valorizamos mais o “selvagem”, o escasso e o raro, enquanto produtos cultivados em escala são vistos com desconfiança.
Essa percepção não é trivial. Romantizar a escassez e desconfiar da produção não se limita ao peixe. Ela se repete em frutas, legumes, carnes e até bebidas. Em muitos casos, construímos mitos sobre autenticidade e qualidade que pouco têm a ver com ciência ou práticas sustentáveis — mas muito com histórias, marketing e nostalgia. O peixe “natural” vira símbolo de pureza; o peixe cultivado, de artificialidade. A abundância é suspeita, a falta é desejável.
Além disso, o mercado em Madri provoca uma reflexão sobre como os espaços urbanos e a experiência de compra moldam nossas ideias sobre comida. Ver os balcões vazios cria uma percepção imediata de perda, gera tensão e força o público a imaginar consequências de uma escassez que, na realidade, poderia ser evitada pela produção responsável. É um lembrete de que o que vemos no mercado — ou o que não vemos — influencia diretamente como pensamos sobre alimentos e escolhas cotidianas.
No fim, a lição não está na falta ou no excesso, mas em como nossas ideias sobre o que é ‘natural’ ou ‘verdadeiro’ moldam o que colocamos no prato. O que o mercado de Madri nos mostra, de maneira quase lúdica e provocadora, é que comida não é apenas nutrição. É narrativa, percepção e poder — sobre nós mesmos, sobre os produtores e sobre o que decidimos valorizar.
Fonte : origenonline.es
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