
A associação setorial citrícola espanhola apresentou recentemente um relatório dedicado ao tema da desinformação alimentar e à forma como esta pode influenciar a perceção do consumidor em relação aos citrinos. A iniciativa procura chamar atenção para o valor do setor e para a necessidade de uma comunicação mais equilibrada sobre os alimentos.
A primeira leitura é direta: trata-se de um esforço para melhorar a forma como um produto agrícola é entendido pelo público, num contexto em que a informação alimentar se tornou cada vez mais fragmentada e abundante.
O setor citrícola apresentou recentemente um relatório que chama atenção para a “desinformação alimentar” e para a necessidade de valorizar melhor os seus produtos. A mensagem é direta: há uma narrativa pública que não reflete corretamente a realidade da produção e do valor dos citrinos.
A primeira reação pode ser quase automática: parece lógico. Todo setor produtivo reivindica reconhecimento, margem justa e menos distorção na forma como é percebido pelo consumidor.
Mas o tema ganha outra dimensão quando se olha com mais atenção.
Porque “desinformação alimentar” é um conceito amplo. Pode incluir desde fake news sobre saúde até simplificações sobre impacto ambiental, passando por interpretações seletivas de estudos científicos e até campanhas de marketing concorrentes. Em outras palavras, não se trata apenas de informação incorreta — trata-se também de disputa de narrativa.
A alimentação se tornou um dos campos mais sensíveis de construção de verdade pública. Não apenas porque comemos todos os dias, mas porque a comida se tornou um território onde se cruzam saúde, ambiente, economia, identidade cultural e política agrícola.
Cada setor tende a fazer o mesmo movimento: tentar corrigir a narrativa sobre si mesmo.
Mas quem define o que é desinformação quando todos os atores estão, ao mesmo tempo, informando, comunicando e defendendo interesses?
Um consumidor ouve que frutas são indispensáveis para a saúde. Outro dia lê que certos modelos agrícolas têm impacto ambiental elevado. Ao mesmo tempo, campanhas setoriais reforçam benefícios, tradições e qualidades nutricionais. O resultado não é necessariamente ignorância — é sobreposição de discursos.
E quando tudo é comunicação, a fronteira entre informação, marketing e defesa institucional fica cada vez mais difusa.
O caso dos citrinos é apenas um exemplo de algo maior: setores agrícolas já não competem apenas em preço ou qualidade. Competem também em reputação, percepção e legitimidade narrativa.
Talvez a questão mais relevante não seja se há ou não desinformação sobre alimentos.
Mas por que o sistema alimentar se tornou um espaço onde cada produto precisa, ao mesmo tempo, ser vendido e justificado.