
Não é preciso encontrar um conteúdo extremo para ser influenciado pelas redes sociais.
Essa é provavelmente uma das ideias mais interessantes do estudo Corps et réseaux sociaux. La fabrique ordinaire du mal-être, publicado em julho pela Fondation APRIL e pela Fondation Jean-Jaurès. O trabalho procura deslocar o olhar dos casos mais evidentes — cyberbullying, desinformação, conteúdos perigosos — para algo muito mais cotidiano: a exposição repetida a conteúdos aparentemente normais, positivos e até educativos que acabam moldando a maneira como os jovens percebem o corpo, a saúde e o que significa “estar bem”.
E aqui está o ponto que merece nossa atenção.
Não estamos falando necessariamente de alguém dizendo: “você deve fazer isso”.
A linguagem é outra.
“Você poderia...”
Poderia comer melhor. Poderia treinar mais. Poderia dormir melhor. Poderia melhorar sua pele. Poderia mudar seu corpo. Poderia ser mais produtivo. Poderia finalmente se tornar a sua “melhor versão”.
Parece liberdade.
Mas o estudo levanta uma questão interessante: quando essas mensagens são repetidas milhares de vezes, por pessoas diferentes, em formatos diferentes e cuidadosamente selecionados pelos algoritmos, até que ponto continuam sendo apenas possibilidades?
A pesquisa Ifop realizada para as duas fundações com 2.000 jovens franceses de 15 a 24 anos encontrou que 83% declararam ter sido expostos, nos 12 meses anteriores, a conteúdos que apresentavam um risco potencial para a saúde. Mais importante: 77% disseram ter modificado pelo menos um comportamento depois de ver um conteúdo nas redes sociais, e quase sete em cada dez fizeram isso sem consultar um profissional de saúde ou uma pessoa de confiança.
Outro dado chama atenção: 53% afirmaram já ter feito um autodiagnóstico de pelo menos um problema de saúde, enquanto apenas 41% desses jovens chegaram posteriormente a consultar um profissional. O estudo também aponta que experiências pessoais compartilhadas nas redes podem adquirir uma autoridade que, em determinados contextos, compete com o conhecimento médico.
Isso não significa que toda experiência compartilhada seja falsa ou inútil.
Aliás, seria uma conclusão tão simplista quanto aquela que o estudo procura evitar.
Uma pessoa que relata uma experiência pode ajudar outra a reconhecer um problema, procurar informação ou encontrar apoio. Comunidades online também podem oferecer algo que o sistema tradicional de saúde nem sempre consegue oferecer: identificação, escuta e sensação de pertencimento.
A questão começa quando experiência passa a valer como prova.
E quando o relato de alguém que viveu determinada situação começa a substituir, na cabeça de quem assiste, conhecimentos que exigem formação, investigação e avaliação profissional.
É aí que o estudo introduz outra ideia particularmente interessante: o corpo como projeto.
O corpo deixa de ser simplesmente aquilo que temos e passa a ser algo que precisamos permanentemente melhorar.
Mais músculos. Menos gordura. Uma pele melhor. Uma alimentação melhor. Mais desempenho. Mais disciplina.
E, sobretudo, mais visibilidade.
Porque o corpo tem uma característica perfeita para as redes sociais: ele pode ser mostrado.
Uma transformação física pode ser fotografada, filmada, comparada e quantificada. O resultado aparece na tela. O reconhecimento também: curtidas, comentários, seguidores.
O estudo fala, nesse sentido, da transformação do corpo em uma espécie de “moeda simbólica”. A aparência passa a oferecer uma forma visível de reconhecimento em um ambiente no qual quase tudo pode ser medido pela atenção que recebe.
E aqui chegamos a um aspecto que interessa particularmente à alimentação.
Quantas vezes uma preocupação alimentar começa justamente assim?
Não com uma doença.
Não com uma recomendação médica.
Mas com a sensação de que alguma coisa em nós poderia ser diferente.
Uma barriga que poderia ser menor. Um corpo que poderia ser mais definido. Uma alimentação que poderia ser “mais limpa”. Um alimento que deveríamos eliminar. Outro que deveríamos consumir todos os dias.
A indústria não precisa necessariamente inventar a insatisfação.
Basta encontrar uma maneira de transformá-la em mercado.
É uma das passagens mais fortes do estudo: antes de vender uma solução, é preciso que exista um problema percebido. As redes sociais não criam necessariamente nossas inseguranças do nada, mas podem torná-las mais visíveis, comparáveis e permanentes — e, portanto, mais facilmente transformáveis em oportunidades de consumo.
Isso vale para suplementos, programas alimentares, cosméticos, aplicativos, equipamentos esportivos, consultas, cursos e uma infinidade de produtos e serviços.
E talvez seja justamente por isso que a discussão não deveria ser reduzida a “redes sociais fazem mal?”
Essa pergunta é grande demais e, ao mesmo tempo, pouco útil.
A questão mais interessante talvez seja:
o que estamos aprendendo a desejar quando passamos horas olhando para outras pessoas?
O estudo não propõe simplesmente demonizar as redes sociais. Pelo contrário, seus autores defendem que o problema está também na arquitetura das plataformas, na repetição algorítmica e na transformação de determinados conteúdos em normas silenciosas. Por isso, questionam uma resposta baseada apenas em pedir aos jovens que tenham “mais espírito crítico”: a responsabilidade individual pode ser insuficiente diante de ambientes desenhados para captar e manter a atenção.
Talvez seja esta a parte mais difícil de aceitar.
Não existe necessariamente um propagandista.
Não existe uma pessoa dizendo o que devemos pensar.
Existe um sistema que seleciona, repete, compara e torna algumas imagens muito mais presentes do que outras.
E, pouco a pouco, aquilo que vemos todos os dias começa a parecer aquilo que é normal.
Inclusive quando falamos de comida.
Referência principal: Sophie Ferreira e Benoît Heilbrunn, Corps et réseaux sociaux. La fabrique ordinaire du mal-être, Fondation APRIL / Fondation Jean-Jaurès, 9 juillet 2026.
