
Apenas 48% das empresas do setor alimentício dizem usar informação de maneira consistente em sua comunicação ao consumidor. Isso em um tempo em que rótulos estão cheios de dados, tabelas nutricionais, ícones, selos e mensagens diversas que, em teoria, deveriam facilitar a decisão de compra — mas muitas vezes só confundem mais.
Em teoria, informação deveria ser libertadora. Saber o que um alimento contém, sua origem, nutrientes e impactos deveria ajudar o consumidor a decidir com mais segurança. Só que, na prática, a comunicação é dominada por marketing, prioridades comerciais e escolhas semânticas que nem sempre se traduzem em clareza.
Produtos têm selos, claims e slogans que chamam a atenção, mas muitas vezes deixam de lado o essencial: dados compreensíveis e relevantes para quem está na prateleira com o carrinho na mão — em vez disso, lucram com o brand appeal.
O resultado é um paradoxo:
- Há mais informações disponíveis do que nunca — do Nutri‑Score aos ingredientes detalhados —
- Mas o uso dessas informações na comunicação é muitas vezes inconsistente, confuso ou até contraditório.
Isso nos leva a uma pergunta simples, porém profunda: qual é o verdadeiro papel da informação quando está enredada em estratégias publicitárias? Quando uma marca prioriza o design do logo ou um claim sedutor em vez de explicar claramente o que o alimento realmente oferece, a informação vira persona — não conteúdo.
E, nesse cenário, o consumidor não recebe dados, mas narrativas cuidadosamente moldadas para influenciar suas escolhas.
O problema não está apenas em quantas empresas dizem usar informação, mas como elas a usam. Uma comunicação consistente exige mais do que dados técnicos — exige linguagem acessível, contexto e honestidade na apresentação dos fatos.
Não basta colocar uma tabela nutricional se ela permanecer ininteligível para quem olha rapidamente. Não adianta destacar um nutriente “positivo” se vários outros indutores de risco (como açúcar, sódio ou ultraprocessamento) ficam no plano de fundo.
Esse cenário não é apenas uma falha de marketing, é um espelho da complexidade cultural da alimentação moderna:
- Vivemos numa era com mais dados do que nunca,
- Mas há um abismo entre informação disponível e informação compreendida.
E esse abismo não é neutro: ele influencia escolhas, estilo de vida e até padrões de consumo em escala macro.
No fim, a questão não é simplesmente “quantas empresas usam informação de forma consistente”. É: como fazer com que informação deixe de ser ruído e passe a ser ferramenta real de decisão?
A resposta exige não só melhores práticas de comunicação, mas uma cultura que valorize educação alimentar, sem simplificações senão simplórias — ou pior, propagandas disfarçadas de informação.
Fonte : Baseado no artigo: "Apenas 48% das empresas utilizam informação de forma consistente na comunicação", publicado em Grande Consumo.
Imagem : Freepik