
Há filmes em que a comida aparece por alguns segundos. Há outros em que ela praticamente conduz a narrativa.
Uma refeição pode revelar uma relação entre personagens, um prato pode carregar uma memória familiar, uma cozinha pode mostrar uma profissão, uma receita pode contar a história de um território. O alimento deixa de ser simplesmente parte do cenário e passa a ser uma das maneiras pelas quais a história é contada.
É justamente essa relação entre cinema e gastronomia que está no centro do Culinary Zinema, seção do Festival de Cinema de San Sebastián dedicada a filmes relacionados à alimentação. Na edição de 2026, serão cinco filmes, quatro deles em estreia mundial, acompanhados por cinco jantares temáticos preparados em diálogo com as obras exibidas.
A programação é reveladora.
Há um filme sobre a reconstrução contemporânea da cozinha de Al-Andalus no restaurante Noor, em Córdoba. Outro mergulha na cultura do vinho da Borgonha. Um terceiro acompanha o universo do sushi japonês e de seu chef, Yasuhiko Mitani. Há ainda um retrato de Pedro Subijana e de sua importância para a Nova Cozinha Basca, além de um percurso pela tradição gastronômica de Maiorca.
São histórias bastante diferentes.
Mas todas têm algo em comum: a comida é uma forma de falar sobre algo que vai muito além da comida.
Uma técnica culinária pode contar uma história de transmissão. Um ingrediente pode revelar um território. Um restaurante pode mostrar uma época. Uma receita pode preservar uma memória que não está escrita em nenhum livro de história.
Talvez seja por isso que a comida funcione tão bem no cinema.
Ela é concreta.
Podemos vê-la, mas também imaginamos seu cheiro, sua textura, sua temperatura e seu sabor. Uma mesa pode comunicar intimidade sem que os personagens precisem explicar nada. Uma cozinha cheia de gente pode mostrar hierarquia, tensão e cooperação. Um prato preparado por uma avó pode dizer sobre pertencimento muito mais do que um longo diálogo.
E existe ainda uma outra possibilidade: o cinema pode fazer com que o espectador deseje experimentar aquilo que está vendo.
É justamente essa fronteira entre assistir e experimentar que alguns eventos de cinema gastronômico exploram.
Em Paris, por exemplo, a primeira edição do EATFILM, realizada em junho de 2026, reuniu dez documentários de sete países em torno da mesa, com projeções, degustações, encontros e debates. O próprio festival parte da alimentação para falar de relações, gestos e culturas.
Em outro formato, o Food Film Festival, nos Estados Unidos, construiu sua proposta justamente sobre essa associação entre a imagem e a experiência: o público assiste à comida na tela e pode provar pratos relacionados ao que está sendo mostrado.
A ideia é simples, mas bastante poderosa.
A tela mostra. A mesa completa a experiência.
Talvez seja também uma maneira de lembrar que a alimentação não é apenas aquilo que colocamos no prato.
Ela é uma linguagem.
Falamos de família através de receitas. De território através de ingredientes. De religião através de restrições alimentares. De classe social através dos hábitos à mesa. De migração através da mistura de cozinhas. De trabalho através das mãos de quem produz ou prepara.
E, evidentemente, falamos de prazer.
O curioso é que o cinema percebeu isso há muito tempo.
Não é preciso procurar apenas filmes classificados como “gastronômicos” para encontrar a comida desempenhando esse papel. Basta lembrar quantas cenas memoráveis do cinema acontecem em torno de uma mesa, de uma cozinha, de um mercado ou de um alimento específico.
A comida pode ser o assunto.
Mas pode também ser o argumento.
É por isso que iniciativas como o Culinary Zinema são interessantes. Elas não apenas aproximam duas indústrias criativas. Elas reconhecem que cinema e alimentação compartilham uma matéria-prima particularmente humana: a capacidade de contar histórias através dos sentidos.
No fim, talvez seja por isso que alguns filmes nos deixam com vontade de comer.
E outros fazem algo mais interessante:
nos deixam com vontade de entender por que comemos aquilo.
