Após mais de duas décadas de investimento, a Amazon continua enfrentando dificuldades para se consolidar de forma significativa no setor alimentar. Diferentemente de outras categorias onde a empresa se tornou dominante, o mercado de alimentos apresenta desafios estruturais que limitam a escalabilidade e a rentabilidade do modelo digital.
O primeiro desses desafios está na própria economia do setor. O alimentar opera com margens tradicionalmente reduzidas, o que torna mais difícil absorver custos logísticos elevados, especialmente aqueles associados à preparação de pedidos e à entrega ao consumidor final.
Ao contrário de produtos duráveis, os alimentos exigem maior frequência de compra e menor ticket médio, pressionando ainda mais a rentabilidade das operações online.
A logística é outro fator determinante. A gestão de produtos frescos, a necessidade de cadeia de frio, os prazos curtos e a variabilidade da demanda tornam o e-commerce alimentar significativamente mais complexo do que outros segmentos.
O chamado “último quilômetro” — etapa final da entrega — permanece um dos pontos mais críticos, tanto em termos de custo quanto de qualidade do serviço.
Além disso, o comportamento do consumidor continua sendo um elemento-chave.
Embora o comércio eletrônico tenha avançado nos últimos anos, muitos consumidores ainda preferem escolher pessoalmente seus alimentos, especialmente produtos frescos. Questões como confiança, hábito e experiência de compra continuam favorecendo o canal físico em diversas ocasiões de consumo.
Nesse contexto, observa-se que os modelos mais bem-sucedidos não são exclusivamente digitais, mas sim estratégias omnicanal, que combinam lojas físicas, plataformas online, click & collect e serviços de entrega.
Esse modelo híbrido tem permitido a distribuidores tradicionais manter relevância e competitividade, aproveitando sua infraestrutura existente e proximidade com o consumidor.
O caso da Amazon evidencia, portanto, que a transformação digital no setor alimentar segue uma lógica própria. Mais do que replicar modelos de outros segmentos, é necessário adaptar estratégias às especificidades do produto, da cadeia de abastecimento e das expectativas do consumidor.
Para empresas e profissionais do setor agroalimentar, a principal lição é clara: o futuro não está apenas na digitalização, mas na capacidade de integrar canais, otimizar operações e oferecer uma proposta de valor coerente com as particularidades do consumo alimentar.
Fonte:LSA, “Amazon : après 20 ans d’essai, comment le géant du e-commerce compte enfin peser dans l’alimentaire”, 2026.
Imagem : Freepik
