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2026

E-commerce alimentar é um desafio, mesmo para gigantes como a Amazon

Apesar de sua liderança global em e-commerce, a Amazon ainda enfrenta dificuldades para se impor no setor alimentar devido a margens reduzidas, alta complexidade logística e comportamento do consumidor. O mercado exige modelos mais adaptados, com forte integração entre canais físicos e digitais. Nesse contexto, o sucesso no alimentar depende menos da digitalização isolada e mais de estratégias omnicanal e eficiência operacional.

Após mais de duas décadas de investimento, a Amazon continua enfrentando dificuldades para se consolidar de forma significativa no setor alimentar. Diferentemente de outras categorias onde a empresa se tornou dominante, o mercado de alimentos apresenta desafios estruturais que limitam a escalabilidade e a rentabilidade do modelo digital.

O primeiro desses desafios está na própria economia do setor. O alimentar opera com margens tradicionalmente reduzidas, o que torna mais difícil absorver custos logísticos elevados, especialmente aqueles associados à preparação de pedidos e à entrega ao consumidor final.

Ao contrário de produtos duráveis, os alimentos exigem maior frequência de compra e menor ticket médio, pressionando ainda mais a rentabilidade das operações online.

A logística é outro fator determinante. A gestão de produtos frescos, a necessidade de cadeia de frio, os prazos curtos e a variabilidade da demanda tornam o e-commerce alimentar significativamente mais complexo do que outros segmentos.

O chamado “último quilômetro” — etapa final da entrega — permanece um dos pontos mais críticos, tanto em termos de custo quanto de qualidade do serviço.

Além disso, o comportamento do consumidor continua sendo um elemento-chave.

Embora o comércio eletrônico tenha avançado nos últimos anos, muitos consumidores ainda preferem escolher pessoalmente seus alimentos, especialmente produtos frescos. Questões como confiança, hábito e experiência de compra continuam favorecendo o canal físico em diversas ocasiões de consumo.

Nesse contexto, observa-se que os modelos mais bem-sucedidos não são exclusivamente digitais, mas sim estratégias omnicanal, que combinam lojas físicas, plataformas online, click & collect e serviços de entrega.

Esse modelo híbrido tem permitido a distribuidores tradicionais manter relevância e competitividade, aproveitando sua infraestrutura existente e proximidade com o consumidor.

O caso da Amazon evidencia, portanto, que a transformação digital no setor alimentar segue uma lógica própria. Mais do que replicar modelos de outros segmentos, é necessário adaptar estratégias às especificidades do produto, da cadeia de abastecimento e das expectativas do consumidor.

Para empresas e profissionais do setor agroalimentar, a principal lição é clara: o futuro não está apenas na digitalização, mas na capacidade de integrar canais, otimizar operações e oferecer uma proposta de valor coerente com as particularidades do consumo alimentar.



Fonte:LSA, “Amazon : après 20 ans d’essai, comment le géant du e-commerce compte enfin peser dans l’alimentaire”, 2026.

Imagem : Freepik