Os europeus estão recuperando parte da confiança no sistema alimentar, mas fabricantes e autoridades continuam enfrentando um déficit de credibilidade. Ao mesmo tempo, temas como ultraprocessados, aditivos e novas tecnologias alimentares alimentam dúvidas que nem sempre podem ser respondidas por informações simples. Mais do que acumular dados, reconstruir a confiança exige transparência, contexto e uma comunicação capaz de explicar também aquilo que a ciência ainda não sabe.
Nunca tivemos acesso a tanta informação sobre os alimentos. Podemos consultar a lista de ingredientes, comparar valores nutricionais, verificar a origem de um produto, pesquisar um aditivo ou descobrir em poucos segundos o que significa um determinado processo de fabricação. Ainda assim, saber mais não parece ter tornado necessariamente o consumidor mais confiante.
O tema aparece com força nos dados mais recentes sobre a relação dos europeus com seu sistema alimentar. O Trust Report 2026, elaborado pelo EIT Food Consumer Observatory a partir de quase 20 mil consumidores de 18 países europeus, mostra que a confiança, depois de atingir seu nível mais baixo em 2023, voltou a crescer. Mas essa recuperação é desigual: os agricultores continuam sendo os atores mais confiáveis, enquanto fabricantes e autoridades permanecem entre aqueles que recebem menos confiança.
O resultado é interessante porque mostra que a questão não é simplesmente saber se as pessoas confiam ou não na alimentação. Elas parecem fazer distinções entre os diferentes atores que participam do sistema.
Essa desconfiança também aparece nas preocupações relacionadas aos próprios alimentos. No Reino Unido, por exemplo, os preços continuam sendo a principal preocupação dos consumidores, mas os alimentos ultraprocessados aparecem logo depois. Em junho de 2026, 78% dos entrevistados declararam preocupação com eles, enquanto 76% demonstraram preocupação com a qualidade dos alimentos. Os aditivos também aparecem entre os temas que despertam atenção.
Os números ajudam a explicar por que palavras como “ultraprocessado”, “aditivo”, “corante”, “conservante” ou “ingrediente artificial” adquiriram tamanha força no debate alimentar. Mas a preocupação do consumidor não significa automaticamente que todos esses elementos representem o mesmo risco, nem que sua presença permita classificar um alimento como saudável ou prejudicial.
É justamente aí que a informação começa a encontrar um limite.
Uma lista de ingredientes pode ser tecnicamente correta e, ainda assim, difícil de interpretar. Um estudo pode identificar uma associação entre determinado alimento e um problema de saúde sem demonstrar uma relação de causa e efeito. Uma substância pode apresentar perigo em determinadas condições de exposição e não representar o mesmo risco nas quantidades efetivamente consumidas.
A dificuldade não está apenas na falta de informação. Está também em transformar informação científica em algo que possa ser compreendido e utilizado para tomar decisões.
O debate sobre os alimentos ultraprocessados é um bom exemplo. A percepção negativa é hoje bastante disseminada entre os consumidores europeus. Uma pesquisa realizada pelo EIT Food em 17 países mostrou que 65% dos entrevistados consideravam os ultraprocessados pouco saudáveis e 67% acreditavam que seu consumo contribuía para obesidade, diabetes e outros problemas relacionados ao estilo de vida.
Isso não significa, porém, que a classificação de um alimento como ultraprocessado seja suficiente para responder a todas as perguntas sobre sua qualidade ou seus efeitos sobre a saúde. A própria discussão científica continua examinando quais características dos produtos, dos padrões alimentares e dos processos de transformação estão associadas aos diferentes resultados observados.
Enquanto a ciência procura estabelecer essas relações com mais precisão, o debate público frequentemente simplifica. “Natural” passa a significar saudável. “Industrial” passa a significar ruim. Uma lista curta de ingredientes parece melhor do que uma lista longa. Um ingrediente conhecido parece mais seguro do que um nome químico.
São atalhos compreensíveis, mas não necessariamente bons critérios científicos.
A indústria também enfrenta esse problema. Para responder às novas expectativas, fabricantes reformulam produtos, retiram determinados aditivos, reduzem açúcar ou sal, acrescentam fibras e procuram utilizar ingredientes que o consumidor reconheça com mais facilidade.
Algumas dessas mudanças podem representar avanços reais. Mas a reformulação de um produto não transforma automaticamente um alimento de consumo ocasional em um alimento essencialmente saudável. E uma comunicação que destaca uma única característica positiva pode acabar produzindo exatamente o efeito contrário ao desejado: aumentar a desconfiança.
A mesma dificuldade aparece quando novas tecnologias alimentares chegam ao mercado. O terceiro capítulo do Trust Report 2026, dedicado à confiança na inovação, mostra que apenas 31% dos consumidores europeus pesquisados se declaravam abertos a produtos alimentares inovadores em 2025. Entre aqueles que confiam no sistema alimentar, 38% demonstravam abertura à inovação, contra apenas 6% entre os consumidores com baixo nível de confiança.
A familiaridade pesa. O que conhecemos tende a parecer menos ameaçador. O que não conhecemos precisa de explicação — e, sobretudo, precisa de uma fonte em que confiemos.
Talvez seja por isso que a questão da confiança não possa ser resolvida simplesmente produzindo mais informação.
O próprio EIT Food aponta a transparência como um dos elementos mais importantes para reconstruir a confiança. Mas transparência não significa apenas disponibilizar mais dados. Significa também explicar de onde eles vêm, quais são seus limites, o que ainda não se sabe e como uma conclusão científica foi alcançada.
É uma tarefa particularmente importante em alimentação, porque poucas decisões são tão cotidianas e, ao mesmo tempo, tão influenciadas por fatores econômicos, culturais, sociais e científicos.
O consumidor não precisa saber a toxicologia de cada aditivo, compreender todos os métodos utilizados para avaliar um risco ou acompanhar cada novo estudo publicado. Precisa, antes, conseguir distinguir uma informação científica de uma interpretação, uma hipótese de uma conclusão e um risco real de um simples sinal de alerta.
A questão para o sistema alimentar não é informar cada vez mais, é informar melhor, explicar melhor e aceitar que algumas respostas ainda não são definitivas.
A confiança não nasce da promessa de que não existem riscos. Ela se constrói quando produtores, indústria, distribuição, autoridades, pesquisadores e comunicadores conseguem explicar esses riscos com clareza — inclusive quando a resposta é mais complexa do que um simples “faz bem” ou “faz mal”.
Fontes: EIT Food — Trust Report 2026: The state of trust in Europe's food system
