
Depois das calorias, das proteínas, da pegada de carbono, do bem-estar animal e dos inúmeros selos que disputam espaço nas embalagens, a França começa a testar um novo indicador: a informação sobre a remuneração dos agricultores.
A proposta é simples na aparência: permitir que o consumidor saiba melhor qual parcela do valor do alimento chega efetivamente a quem o produz.
A ideia é difícil de contestar. Afinal, quem seria contra uma remuneração mais justa para os agricultores?
Mas a iniciativa também levanta uma questão interessante: até que ponto o valor de quem produz pode ser traduzido em um selo?
Nas últimas décadas assistimos a uma transformação silenciosa da embalagem. Ela deixou de ser apenas um suporte para identificar um produto e passou a funcionar como um resumo das grandes preocupações da sociedade.
Saúde, meio ambiente, origem, impacto climático, bem-estar animal, rastreabilidade, comércio justo. Agora, remuneração agrícola. A cada novo desafio, surge a expectativa de que o rótulo consiga explicar um pouco mais do mundo.
O problema é que a realidade raramente cabe em uma nota, uma cor ou um indicador.
Um agricultor pode receber uma remuneração considerada adequada e ainda enfrentar dificuldades econômicas.
Uma cadeia produtiva pode ser mais justa para quem produz, mas apresentar outros desafios ambientais ou sociais.
Um alimento pode acumular qualidades e contradições ao mesmo tempo.
Talvez o aspecto mais curioso dessa iniciativa seja outro: o papel cada vez mais atribuído ao consumidor.
Durante muito tempo escolher um alimento significava comparar preço, qualidade, origem ou preferência pessoal.
Hoje espera-se que o consumidor também participe de debates sobre sustentabilidade, biodiversidade, condições de produção, impacto climático e distribuição de renda ao longo da cadeia alimentar.
Diante da prateleira, ele deixa de ser apenas comprador. Torna-se uma espécie de árbitro de questões que mobilizam economistas, agricultores, empresas, governos e organizações há décadas.
Mais informação pode ser algo positivo. Sem dúvida. Mas vale perguntar se estamos realmente tornando o sistema alimentar mais transparente ou apenas transferindo para o consumidor uma responsabilidade cada vez maior. Porque existe uma diferença entre informar e delegar.
A discussão não é sobre a legitimidade de valorizar quem produz os alimentos. Essa valorização é necessária. A questão é : por que precisamos de um selo para nos lembrar de algo tão fundamental?
Talvez a verdadeira pergunta não seja quanto vale um agricultor na prateleira.
Talvez seja por que chegamos a um ponto em que o valor de quem produz precisa ser explicado na embalagem.
Imagem: Magnific
