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2026

O lobo, o peixe e o que chamamos de “publicidade enganosa”

A decisão judicial envolvendo a campanha da Intermarché reacende o debate sobre os limites entre publicidade criativa e comunicação enganosa. Mais do que o produto em si, o caso evidencia como a alimentação hoje é também construída por narrativas e interpretações. Nesse contexto, comer não é apenas consumir, mas também decifrar histórias sobre o que está no prato.

Uma decisão recente da justiça francesa deu razão à Intermarché (rede de supermercados) num caso movido pela associação Bloom, que questionava uma campanha publicitária envolvendo produtos de pescado e a figura do “lobo mal-amado”. A acusação era de publicidade enganosa. O tribunal não acolheu o argumento.

À primeira vista, parece apenas mais um conflito entre marketing e regulação. Mas o caso é mais interessante quando se afasta dele o ruído jurídico e se olha para o essencial: hoje, grande parte das disputas sobre alimentação não acontece no prato, mas na forma como o prato é narrado.

A campanha não vendia apenas peixe. Vendia uma história — sobre natureza, equilíbrio, origem, escolha.

E é aqui que o tema se torna mais delicado: quando é que uma narrativa deixa de ser comunicação e passa a ser “enganosa”?

E, mais ainda, quem decide essa fronteira?

Há uma tendência crescente de tentar estabilizar o significado da comida por via regulatória: o que pode ou não pode ser sugerido, o que pode ou não pode ser evocado, o que pode ou não pode ser nomeado. Mas a alimentação sempre foi também construção simbólica. Não existe produto alimentar que não venha acompanhado de contexto, promessa ou interpretação.

O desconforto aparece quando diferentes leituras coexistem. Para uns, a campanha pode parecer uma forma criativa de aproximar o consumidor de uma realidade produtiva complexa. Para outros, pode parecer uma simplificação excessiva ou uma reescrita conveniente da relação entre consumo e impacto ambiental.

Nenhuma dessas leituras é totalmente errada.

O ponto mais relevante talvez seja outro: a dificuldade crescente de aceitar que alimentos, hoje, não circulam apenas como substâncias, mas como mensagens.

E quando tudo pode ser interpretado como mensagem — um peixe, um lobo, uma embalagem, um slogan — o debate deixa de ser apenas sobre o que é “verdadeiro” ou “falso” e passa a ser sobre algo mais instável: o grau de confiança que ainda conseguimos atribuir à linguagem alimentar.

No fim, o caso não é sobre um lobo nem sobre peixe.

É sobre o quanto estamos dispostos a reconhecer que comer, hoje, também é interpretar. E que esquecemos que, por trás dos holofotes, uma parte significativa da população ainda passa fome e que muitos trabalham em condições quase de exploração para que possamos comer, sem jamais serem protagonistas do espaço midiático.

Fonte: LSA Conso — “Le loup mal aimé d’Intermarché gagne contre Bloom : l’association de lutte contre la surpêche déboutée de sa plainte pour publicité trompeuse” (2026).https://www.lsa-conso.fr/le-loup-mal-aime-d-intermarche-gagne-contre-bloom-l-association-de-lutte-contre-la-surpeche-deboutee-de-sa-plainte-pour-publicite-trompeuse,464565

Imagem : Freepik