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2026

Informação em abundância, decisões em escassez: por que ainda escolhemos mal?

Um estudo recente avaliou a literacia alimentar de adultos em Portugal, medindo a habilidade de compreender, interpretar e aplicar informações sobre nutrição no dia a dia.

Vivemos num tempo em que há mais informações sobre alimentação à distância de um clique do que nunca antes na história. Rótulos detalhados, planos alimentares, guias nutricionais e conselhos de especialistas estão em todo lugar — mas, ao mesmo tempo, a capacidade de transformar essa informação em decisões alimentares equilibradas continua sendo um desafio real para a maioria das pessoas.

Um estudo recente avaliou a literacia alimentar de adultos em Portugal, medindo a habilidade de compreender, interpretar e aplicar informações sobre nutrição no dia a dia. Apesar de o acesso à informação ser quase universal, o nível médio de literacia alimentar ficou em cerca de 57,5%, o que indica que uma parte significativa da população ainda tem dificuldade em fazer escolhas conscientes e saudáveis.

Esse padrão não é exclusivo de Portugal. Pesquisas sobre a percepção dos consumidores mostram que, mesmo quando leem rótulos ou entendem o significado de símbolos como Nutri‑Score, muitos não conseguem decodificar corretamente o que esses dados significam para sua rotina alimentar — o que gera confusão na hora de escolher entre produtos aparentemente semelhantes.

O problema é duplo: primeiro, a informação técnica — seja em rótulos, recomendações ou sistemas de classificação nutricional — muitas vezes é complexa demais, com termos e números que não se traduzem facilmente em escolhas práticas no supermercado ou na cozinha.  Segundo, mesmo quando entendemos a informação, nossas decisões alimentares são moldadas por fatores muito mais amplos — custo, conveniência, hábitos de vida, tradições culturais e contexto social — que nem sempre respondem à lógica nutricional pura.

No fundo, isso levanta uma pergunta simples, mas profunda: ter mais informação realmente nos ajuda a comer melhor? Ou será que a alfabetização alimentar — a combinação de conhecimento, habilidades práticas e contexto social — ainda está muito atrás da quantidade de informação disponível?

A resposta, claro, parece ser a segunda: informação é necessária, mas não é suficiente. Para que tenhamos decisões alimentares genuinamente mais equilibradas, é preciso ir além dos dados — transformá-los em habilidades de escolha real no dia a dia, algo que a sociedade e as políticas públicas ainda estão longe de alcançar.

Estudo : 'Estudo Nacional de Avaliação da Literacia Alimentar em Adultos", desenvolvido pela Associação Portuguesa de Nutrição (APN), com apoio do Continente e realização da Pitagórica.

Imagem : Freepik